MADRIGAL
Volume 2 - Capítulo 12
Sonata
Sonata: Peça musical de três a quatro movimentos.
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Para ouvir – Clair de Lune. Debussy
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I. Allegro
O orvalho resultante da chuva de verão brilhava com a volta do sol – pequenas gotículas de brilhantes emoldurando o cenário de seu sonho.
Um sonho? Ele podia sentir a roupa molhada pregar-se desconfortavelmente ao seu corpo, o ar frio fazendo com que se arrepiasse de leve. Se aquilo era um sonho, por que tais sensações eram tão vívidas? E, se não era, o que fazia um anjo sob o caramanchão?
O vento soprou mais uma vez, um pouco mais forte, fazendo com que os cabelos soltos dela balançassem – um halo de cachos escuros em torno do rosto absolutamente sereno.
A música flutuava entre eles num tom leve, quase hipnótico. Mais cedo do que ele esperava, contudo, a peça chegou ao seu último movimento e o anjo abriu os olhos...
Que imediatamente se focaram nele, uma expressão de surpresa sendo logo seguida por outra de embaraço. Assim, antes que o encanto se quebrasse e a figura quase etérea à sua frente fugisse de seus olhos humanos, ele recolheu suas coisas, deixando seu posto sem olhar para trás.
II. Scherzo
O riso do amigo era contagiante e logo ele se viu seguindo-o. O brilho alegre dos olhos dela indicava que a moça também se divertia, ainda que tivesse, a princípio, se oposto à idéia.
Sob o céu de primavera, embalados pela brisa fresca, inebriados pelo perfume das flores que os cercavam, esquecidos do ridículo de suas roupas barrocas e de seus rostos maquiados, dois violinos duelavam; alternando, altercando e harmonizando com o som grave do violoncelo.
III. Largo
Havia sangue na calçada, em suas roupas, em suas mãos. Porém, mais que em qualquer outro lugar, havia sangue no rosto pálido e contorcido de dor da moça em seus braços.
Dez minutos antes, ele a estava abraçando e beijando, despedindo-se pelo dia. Tinha de passar pela casa da tia, e apenas por isso dispensara a oferta de carona e o prazer da companhia de sua – agora – namorada.
Dez minutos antes ela sorria, os olhos brilhando de excitação e amor – a mesma emoção que dançava por toda a expressão dele.
Dez minutos antes, o futuro se estendia brilhante à frente deles.
Ele sabia. Sabia que ela estava morrendo. Podia sentir as cordas no fundo de seu peito – os laços que entrelaçavam suas vidas ameaçando romper-se, talvez congelar sob os primeiros flocos de neve daquele inverno.
A decisão foi rápida, sem hesitação, quase fluida. Metade de uma vida era melhor que toda uma existência vazia. Metade de sua vida pela vida dela. Não era realmente um sacrifício.
Metade de uma vida. E ele faria de novo num único pulsar de seu coração acelerado.
IV. Finale
Dias, semanas, meses, anos. A passagem do tempo lhe era quase despercebida, todas as suas horas preenchidas com partituras e sorrisos, ensaios e carícias, música e afeto.
Nenhum momento desperdiçado – quando cada minuto pode ser o último, não há sentido em perdê-lo com trivialidades. Cada gesto conta; cada vez que respiram, conversam ou fazem amor. Cada memória é única e preciosa, e ele tem completa consciência disso.
Ele a leva para conhecer seus pais numa pequena e escondida vila em meio às montanhas. Ela pega o buquê no casamento ridiculamente ocidental – palavras da noiva – do irmão. Eles vão morar juntos. Nasce o primeiro sobrinho. Alguém pergunta se eles não terão crianças também.
É um dos raros momentos em que ele sente alguma espécie de arrependimento ao ver o olhar triste dela. O tempo deles era limitado. Não seria justo com eles... nem com a criança.
Embora nunca tenha tocado no assunto do acidente ocorrido anos atrás, ele sabe que ela sabe. Ou ao menos desconfia. Depois da terceira ou quarta vez em que ele adoeceu e ela também caiu doente sem haver nada de errado com sua saúde, era difícil não ligar os pontos.
Intuitiva. Ela sempre sabia mais do que aparentava saber.
Então, numa noite de outono, quando o parque onde eles sempre caminham juntos está atapetado de folhas vermelhas e douradas, eles se deitam juntos - como em todas as outras noites nos últimos quase vinte anos.
Ele passa a mão por sua cintura. Ela descansa a cabeça sobre seu ombro. Um último, doce, gentil beijo antes de dormir.
Por um longo tempo, eles foram um trio. Depois, por mais tempo ainda, um dueto. Nunca solistas, ainda que, muitas vezes, dessem a vez no palco para que o outro brilhasse. Eles cessam de respirar no mesmo segundo. Uma existência entrelaçada à outra.
Quase vinte anos. Metade de uma vida. Nem de longe o bastante... E, apesar disso, o suficiente.