MADRIGAL
Volume 2 - Capítulo 11
Dolcissimo
Dolcissimo: extremamente doce e gentil.
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Para ouvir – Salut d’Amour. Elgar
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Há qualquer coisa de delicada nas mãos de um músico: os dedos longos que percorrem as teclas do piano ou que dedilham as cordas de uma viola. Ao mesmo tempo elas são firmes, quase cirúrgicas em sua precisão. São afetuosas, acostumadas a carícias; e fortes, capazes de criar sons retumbantes, que ecoam até a alma.
As mãos de um músico são mãos de um amante.
Ele podia sentir o fantasma de um toque em sua fronte, desenhando cuidadosamente os contornos de sua face - as maçãs do rosto, o nariz, suas pálpebras cerradas, as linhas de sua boca. O limite entre sonho e realidade se diluía: Seiichi sabia que estava dormindo, mas as sensações eram por demais vívidas para que ele acreditasse que apenas sonhava.
Algo roçou seus lábios, algo morno, convidativo. O contato era hesitante e, por um segundo, ele tomou a frente, movendo seus próprios lábios em resposta ao beijo antes que sua consciência fizesse alguma lógica do que acontecia e ele afinal acordasse com um salto, fazendo com que a pessoa que até então estivera debruçada sobre ele caísse sentada no chão.
Por um instante Seiichi encarou os olhos arregalados de Hanako, até finalmente voltar a si e se levantar, estendendo uma mão para ajudá-la.
- Sumimasen, Shiraishi-san... Você está bem?
- Daijoubu. - ela respondeu, com um sorriso fraco - Acho que assustei você. Sinto muito, eu não queria... Shouta disse... - ela abaixou a cabeça, murmurando para si mesma - Oniisan no baka.
Seiichi respirou fundo, percebendo que ainda segurava as mãos da moça firmemente entre as suas. Ele não se retraiu do toque dela, contudo. Por mais que dissesse para si mesmo que o certo era não esperar nada de Hanako, que não era justo querer alguma espécie de recompensa pelo que fizera, a ação da jovem pouco antes fez com que ele tivesse esperança. Afinal, Hanako o beijara; isso tinha que significar alguma coisa, mesmo que só tivesse acontecido pela interferência de Shouta - se o resmungo dela tinha alguma coisa a ver com a história.
- Você só me pegou de surpresa, Hanako. - ele respondeu finalmente, a voz suave envolvendo o nome dela como uma carícia, enquanto ele abaixava os olhos para suas mãos entrelaçadas.
Ele a ouviu prender a respiração por um minuto enquanto interpretava o que ele acabara de dizer. Aquela era a primeira vez, desde que ela acordara do acidente, que ele usava seu primeiro nome.
- Seiichi? - ela retornou no mesmo tom, apertando de leve seus dedos, fazendo com que ele voltasse a atenção para seu rosto. Apesar do ligeiro rubor que agraciava suas bochechas, ela sorriu quando seus olhos se encontraram - Eu não acho que minhas memórias vão voltar. Eu sinto como se... Eu sinto como se todas as minhas lembranças tivessem sido trancadas num baú e que jogaram a chave dele fora. Elas ainda estão aqui dentro, mas a chave não existe mais. E não acho que vá encontrar outra.
O rapaz piscou ligeiramente os olhos, balançando a cabeça. Onde ela estava tentando chegar com aquilo? O que ela queria dizer para ele?
Hanako respirou fundo uma vez, cerrando brevemente os olhos para depois encará-lo com toda a força de seus orbes escuros.
- Eu lamento as memórias que se foram; só posso ter uma vaga idéia do que aconteceu antes através dos relatos de vocês. Mas eu ainda estou aqui. - ela deu um meio sorriso - Ainda estou aqui e, se o passado se perdeu, ainda me restam o presente e o futuro. As coisas e as pessoas que realmente importam ainda estão aqui. Se não posso voltar no tempo; se não posso me lembrar, então quero ser capaz de fazer novas memórias. - ela inspirou devagar, soltando ar pela boca - E eu quero que você faça parte dessas memórias, Seiichi-kun.
O sorriso surgiu devagar no rosto dele. Lentamente ele desenroscou suas mãos, para então passar os braços pela cintura da jovem, aconchegando-a a ele.
- Cada dia da minha vida, Hanako. Cada dia da minha vida devotado a criar novas e felizes memórias para você. Eu prometo isso.
Ele a sentiu sorrir contra seu peito.
- Para nós, Seiichi. Vamos criar memórias para nós.
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Pelo tamanho do sorriso de Shouta, era de se questionar se não fora ele quem arranjara uma garota.
Seiichi sentiu-se brevemente tentado a dar as costas ao amigo e ignorá-lo ostensivamente, mas ele fora mais bem educado que isso e Shouta era, ao final das contas, seu anfitrião.
Desconfortavelmente ele se remexeu em seu lugar no sofá. O sorriso do outro rapaz aumentou. Seiichi perguntou-se – não pela primeira vez – quanto tempo mais a namorada demoraria a terminar de se arrumar.
Um pequeno pigarro interrompeu o silêncio entre eles. Seiichi observou com ligeiro interesse enquanto o outro rapaz terminava de limpar a garganta.
- Então... você e minha irmã, hum?
- Shouta... – ele começou, até que finalmente decidiu se dar por vencido – Ok, então. O que você quer saber?
Com alguma sorte, depois daquela conversa e de sobreviver às brincadeiras do amigo, Shouta deixaria de lançar longos e embaraçosos olhares em sua direção e o mundo voltaria ao normal.
Para surpresa do rapaz, contudo, em vez de começar a provocá-lo sem dó, a expressão de Shouta tornou-se mais leve e gentil.
- Não há nada para perguntar, Seiichi. Estou contente por vocês. Deus sabe o quanto esperei por esse dia. Isso não significa, é claro, que eu não vá partir a sua cara se você magoar a minha irmã.
Seiichi sentiu os cantos da boca se levantarem num sorriso meio torto.
- Eu não esperaria outra coisa de você.
O bater de saltos no corredor impediu que eles continuassem – não que houvesse muito mais a ser dito. Seiichi sabia que Shouta confiava nele, e faria o possível para sempre merecer essa confiança.
Qualquer coerência em seus pensamentos desapareceu, contudo, no instante em que Hanako surgiu na sala em seu vestido de gala, ligeiramente atrapalhada em seu equilíbrio pelos saltos altos e o peso do estojo do violoncelo.
Os dois rapazes se levantaram ao mesmo tempo, mas Seiichi bateu o amigo em alcançá-la, tomando para si a carga que ela trazia, ao mesmo tempo em que a encarava de forma afetuosa.
- Pronta para fazer novas memórias? – ele perguntou, estendendo-lhe sua mão.
Hanako apenas sorriu. Shouta, a essa altura, já estava à porta.
- Vamos lá, pessoal, vamos colocar esse show na estrada! Temos um festival a atender!
Graciosamente, a moça deslizou seu braço para o dele.
- Devemos? – ela perguntou, sorrindo.
Seiichi assentiu.
- Absolutamente.