MADRIGAL







Volume 2 - Capítulo 10

Staccato


Staccato: forma de tocar em que se seguem pequenas soltas, suspensas, de curta duração.
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Para ouvirFantasie Impromptu. Chopin
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Ele se sentou no sofá, meio tonto. Demorou alguns instantes para registrar a luz clara filtrada pelas cortinas; uma olhada no relógio fez com que percebesse que dormira, pelo menos, quinze horas desde a tarde anterior. Àquela altura, já tinha inclusive perdido as aulas da manhã e não lhe restava muita escolha além de ficar por ali mesmo.

Apesar do sono longo, Seiichi ainda se sentia cansado. Bem, era compreensível; não dormia uma noite completa desde... sendo absolutamente sincero consigo mesmo, desde um pouco antes do acidente de Hanako.

A lembrança do nome dela fez com que ele finalmente se levantasse para se aproximar da varanda. Empurrando as cortinas e abrindo a porta de vidro, o rapaz ergueu os olhos, dando de cara com as janelas fechadas do quarto da moça. Ela e Shouta provavelmente já tinham ido para a escola e os ensaios recorrentes para o festival, que aconteceria dentro de uma semana.

Ele se espreguiçou uma vez, voltando para o interior do apartamento, sentindo o piso frio sob seus pés descalços - a alergia o impedira de acarpetar o chão. Café da manhã estava na ordem do dia, assim como um banho. Talvez depois disso ele se sentisse humano o suficiente para ensaiar ou fazer alguma outra coisa de útil.

Não demorou muito para que conseguisse produzir um sanduíche com o conteúdo de sua geladeira, procedendo então à limpeza da área imediata à cozinha enquanto esperava que ele esquentasse. Duas horas depois estava limpo, barbeado e sentado ao piano, experimentando notas soltas da Fantasie Impromptu, de Chopin, ao mesmo tempo em que fazia anotações na partitura.

Em algum canto da sala o celular vibrou, fazendo com que Seiichi se distraísse de seu trabalho. Foram necessários mais dois toques até que fosse capaz de localizar o aparelho, atendendo-o sem olhar o display.

- Moshi, moshi?

Por um segundo houve silêncio do outro lado da linha, antes que a voz tímida de Hanako soasse do outro lado.

- Minamoto-san?

Ele segurou a respiração para só então dar sinal de reconhecê-la.

- Shiraishi-san. Aconteceu alguma coisa?
- Iie... É só que... você não veio à aula hoje. Está doente?

O rapaz deixou um sorriso escapar ao perceber o tom preocupado da jovem.

- Daijoubu, Shiraishi-san. - ele respondeu, passando a outra mão pelo cabelo - Eu só estava cansado e acabei perdendo a hora. Desculpe por preocupá-la.

- Você não precisa se desculpar... Eu é que estou me metendo... Sumimasen. Hum... Eu vou... deixá-lo descansar agora.

Mais uma vez ele sorriu.

- Obrigado, Shiraishi-san. Por ter ligado, digo.

Houve um pequeno pigarro do outro lado da linha.

- Hum... Certo. Eu tenho de ir agora. Ja ne, Minamoto-san.

Ela não esperou que ele se despedisse para desligar, e Seiichi soltou um suspiro antes de cair sentado no sofá, ainda segurando o telefone entre as mãos. Aquela era uma situação complicada... Ele não queria, não podia alimentar esperanças. O que fizera por Hanako não fora para que ela ficasse com ele.

Ainda assim... abnegação, sacrifício, altruísmo, todos eram conceitos complicados demais quando sentimentos estavam envolvidos. Ele não devia esperar nada em troca; contudo, podia sentir ao seu redor a atmosfera de expectativa, como se a qualquer momento Hanako pudesse recuperar a memória e tudo voltaria ao normal.

Ele precisava aceitar que isso não aconteceria. Já tivera a graça de um milagre. Estava sendo ingrato com o presente que recebera. Hanako estava viva. O que mais precisava querer?

A cabeça voltou a latejar. Aparentemente, sua soneca não fora o suficiente para satisfazer suas pálpebras pesadas. Ainda havia trabalho a fazer, músicas para ensaiar... apesar disso, indo contra sua natureza habitual de ordem, Seiichi deixou-se largar de novo no sofá e fechou os olhos, mergulhando pela segunda vez nas últimas vinte e quatro horas num sono profundo e sem sonhos.