MADRIGAL







Volume 2 - Capítulo 09

Requiem


Requiem: hino, serviço musical em homenagem aos mortos.
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Para ouvir – As Quatro Estações – Inverno, II - Largo. Vivaldi
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Apesar de as portas da varanda estarem abertas, as cortinas tinham permanecido cerradas, mergulhando o ambiente numa meia penumbra.

Descalço, ele apoiou os pés nos pedais frios do piano, dançando os dedos pelas teclas sem, contudo, produzir qualquer som. Um grande suspiro escapou de seus lábios e ele cerrou os olhos, cruzando os braços no alto do piano e apoiando a cabeça contra eles.

Estava cansado. Exausto talvez fosse uma descrição mais acurada, para ser sincero. Entre sua autoprivação de sono e os ensaios intermináveis para o Festival, não se lembrava de quando fora a última vez em que simplesmente descansara.

Aquilo não era bom. Ele precisava se cuidar um pouco mais, especialmente agora que não era responsável apenas por sua própria vida.

Som de pneus derrapando no asfalto. Freios. Uma batida brusca.

Seiichi se levantou de vez. Por um momento a sala rodou, e ele se forçou a sentar-se no banco do piano mais uma vez, respirando fundo até que a tontura regredisse a um latejar contínuo na nuca.

Mesmo sem dormir, continuava a ter os pesadelos. Do que adiantava então se forçar a continuar acordado?

Pétalas vermelhas num tapete branco... Sangue na neve. Sangue no asfalto. Sangue em suas mãos.

Massageou as têmporas devagar. Shouta estivera olhando engraçado para ele durante a última semana, mas não questionara as bolsas negras que surgiram sob seus olhos – da mesma maneira que não perguntara sobre sua súbita vontade de pintar os cabelos de branco.

Hanako também estava preocupada. Tão logo ela aparecera ao seu lado no dia anterior, enquanto ele tirava o cadeado da bicicleta, Seiichi percebeu a maneira como os olhos dela rapidamente tomaram sua aparência.

Ela também não perguntou.

Todos sabiam o quanto ele era uma pessoa privada. Como não gostava de entrar em detalhes a seu respeito. Seiichi sempre fora bom em cuidar dos outros, mas nunca em cuidar de si mesmo.

Bem... ele teria de aprender agora.

O pulso fraco quando ele a tirou do carro. O rosto pálido, frio. A vida dela se esvaindo por entre seus dedos.

O rapaz suspirou, passando a mão pelos cabelos grisalhos. Mais uma vez fez um esforço para se levantar; devagar, agora, usando o apoio do piano.

Meio cambaleante, caminhou até o sofá, soltando de vez seu peso sobre as almofadas, não demorando a se deitar. Um suspiro escapou de seus lábios e ele pousou o braço sobre os olhos fechados, tentando fugir da parca claridade que as cortinas permitiam entrar.

Era só um pesadelo. Hanako estava viva. Não importava ela não se lembrar dele. Ela estava viva. Mesmo que nunca se lembrasse – e ele sabia, com absoluta certeza, que as memórias dela não voltariam –, ela estava viva.

Isso lhe bastava.

Os lábios gelados, molhados de sangue. Aquela era sua única chance. Se o coração dela parasse de bater, não haveria volta. Tinha que fazer aquilo. Era sua única chance.

Ele era criança quando ouvira a história pela primeira vez. Um conto antigo, uma lenda, uma fábula... Não sabia precisar sob que categoria fora apresentada. Mesmo muito pequeno para compreender todas as implicações da história, ele a tivera viva em sua lembrança por anos.

"Havia um casal de amantes. Ela era uma nobre, e fora prometida em casamento a outro por sua família. Eles planejaram fugir. Antes, porém, que pudessem terminar os preparativos para a fuga, a moça caiu doente. Os médicos logo desistiram de seu caso, dizendo que ela estava perdida para os homens. Que não sobreviveria mais uma noite.

A família dela não deixou que ele a visse; de forma que, naquela que tinham dito ser a última noite de vida da moça, ele se infiltrou entre os empregados e, para sua sorte, quando a encontrou, ela estava sozinha, já agonizando.

Implorou para que ela não o deixasse. Jurou que, caso ela se fosse, ele a seguiria imediatamente. Por fim, ofereceu sua própria vida pela dela, rogando a qualquer deus que existisse que aceitasse sua oferenda.

Com um último beijo, ele selou sua promessa.

Quase no mesmo instante a respiração da jovem se normalizou e seu rosto, cujas cores a morte já começara a sugar, voltou a sustentar um leve rosado. Enquanto isso acontecia, as mãos dele se enrugavam e ele sentiu-se, subitamente, muito velho.

Na bacia de água que havia no quarto, ele observou sua aparência. Notou algumas pequenas rugas em sua expressão e seus cabelos, que sempre tinham sido tão negros como piche, estavam agora cinzentos.

Vozes soaram no corredor em direção ao quarto da moça, e ele precisou fugir – se o pegassem ali, estaria morto. Assim, com um último olhar para sua amada, voltou a desaparecer na noite.

Quando a moça acordou – ainda fraca, mas viva –, todos festejaram, afirmando que fora intervenção divina. Os médicos não sabiam explicar sua súbita melhora, nem o estranho sintoma que surgira após seu despertar.

Ela não se lembrava de nada até o momento em que reabrira os olhos. Não sabia seu nome, nem nada sobre seus pais. Não tinha qualquer memória de infância nem das pessoas com quem convivera.

Como uma criança, pôde ser facilmente manipulada a acreditar que amava o noivo que sua família arranjara. Uma semana depois de sua miraculosa volta do mundo dos mortos, os dois se casaram.

Sem que ela nem ninguém mais soubesse, o jovem a observava de longe. Ele assistiu ao casamento. Viu-a redescobrir o mundo com olhos curiosos. Ser mãe pela primeira vez. Sempre à distância.

Ele acreditava que ela era feliz. E, se ela estava feliz e bem, então ele estava satisfeito. Aquilo era tudo o que desejava para ela, mesmo que não pudesse fazer parte dessa felicidade.

O que o jovem não sabia é que, embora se sentisse feliz, sua amada sempre tinha a impressão de que lhe faltava alguma coisa. Não suas memórias, em si, mas algo que às vezes parecia arder com a ausência em seu peito.

Anos se passaram. A cada dia ele se sentia mais cansado, como se o peso da idade tivesse duplicado sobre seus ombros. Então, uma noite, quando foi se deitar – sozinho em sua cabana solitária – não mais se levantou.

Na mesma noite, ela também morreu. Ele dividira com ela seus anos no momento em que o tempo dela chegava ao fim. Duas vidas, uma mesma existência. Quando ele se foi, ela também se apagou."

Assim seria para Seiichi. Ele a observaria de longe, feliz por vê-la feliz. Mesmo quando não precisasse mais dele, mesmo quando eles se separassem. Ele jamais se arrependeria da decisão que tomara.

Metade de sua vida pela vida de Hanako. Era um preço justo, e ele o pagaria de novo, se necessário. Sem hesitação.