MADRIGAL
Volume 2 - Capítulo 08
Nocturne
Nocturne – composição musical que possui um caráter romântico ou de sonho, associado com a idéia de noite.
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Para ouvir – Nocturne in E. Chopin
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A noite estava um pouco quente, mas ainda agradável com a brisa que de vez em quando soprava pela janela aberta. O céu estava sem nuvens – não fosse pela luz da cidade, eles poderiam ver claramente as estrelas.
Shouta deu um meio sorriso, terminando de picotar os vegetais para em seguida jogá-los na frigideira. Aquele era o dia de ele cozinhar e, embora sua comida não fosse tão boa quanto a da irmã, ele gostava da familiaridade que seus turnos no fogão evocavam; o senso de conforto e tranqüilidade.
Hanako estava lendo em seu quarto, o jazz que ela colocara mais cedo alternando de quando em quando com um blues antigo ecoavam por todo o apartamento, fazendo com que Shouta dançasse junto ao balcão.
Normalmente, as coisas que Hanako ouvia casavam com seu humor. Shouta não tinha muita certeza, contudo, de como interpretar a escolha da irmã. De forma geral, eram canções melancólicas, românticas, que o faziam lembrar dos noturnos que estivera ensaiando aquela manhã para o Festival.
Um meio sorriso agraciou sua expressão no momento em que se lembrou dos ensaios mais cedo, quando, mais uma vez, acabara por se encontrar sozinho na mesma sala com Aoi.
Namorar a professora nunca fora sua idéia de um relacionamento ideal. Em primeiro lugar, havia a questão da diferença de idade que, mesmo não sendo um grande empecilho, às vezes provava-se um desafio. Tinham recebido uma educação diferente, uma visão de mundo diferente; ela era, por óbvio, muito mais madura e segura de seus objetivos, enquanto ele era e se sentia apenas um menino.
Depois, claro, havia o fato de ela ser sua superior hierárquica, uma figura de autoridade. Se o relacionamento deles viesse à tona, não seria apenas um escândalo, como também era bastante possível que Aoi perdesse o emprego – para não entrar no mérito de sua própria expulsão.
Ainda assim, embora as convenções mais óbvias, eles estavam juntos. Mesmo que ele tivesse a cabeça de menino e ela fosse uma mulher; mesmo que o mundo estivesse contra e todos os outros clichês do gênero, eles tinham se apaixonado e ficado juntos.
Em absoluto segredo, claro.
Ele sorriu para si mesmo mais uma vez. Quando contara para Hanako, pouco depois de ter conseguido que Aoi desse uma chance a eles, a irmã quase tivera uma síncope, jurara que ele precisava de tratamento médico visto estar completamente louco. Fora preciso uma longa discussão para que ela aceitasse sua afeição pela sensei.
Ao final, ela conseguira ver a razão. Que culpa tinha ele de ter se apaixonado? Não era o fim do mundo, e Shouta não seria o primeiro a ter uma namorada mais velha, ou mesmo a desafiar convenções para “viver um grande amor” – por vezes, quase se sentia o próprio Romeu na ópera de Tchaikovsky.
Tão imerso estava em seus pensamentos que mal notou quando um estranho e súbito silêncio mergulhou sobre a casa. Estranhando o fato de a irmã ter interrompido tão abruptamente o som, ele certificou-se rapidamente de que seu cozido não queimaria em sua ausência, para então seguir caminho ao quarto de Hanako.
A cena que o esperava não era nova, embora fosse a primeira vez que ela ocorria desde o acidente. Em pé, junto às cortinas, com as luzes apagadas, ela observava o prédio da frente. De sua posição, era visível para Shouta o apartamento de Seiichi, apenas a alguns metros de diferença.
O amigo estava ao piano, totalmente concentrado em sua música, alheio à platéia que o assistia inadvertidamente. O vento trazia acordes soltos que não faziam muito sentido, como se Seiichi estivesse tocando a esmo, juntando notas sem lógica.
Hanako sempre gostara de observar Seiichi. Começara algum tempo após aquele dia de tempestade, e depois que Shouta já tinha estabelecido um conhecimento com o colega de classe.
A expressão da jovem nesses momentos fazia-o lembrar da expressão do próprio Seiichi a observá-la sob o caramanchão – os olhos cheios de surpresa e enlevo, como se presos num mundo paralelo, num encantamento saído de sonhos de uma noite de verão.
Foi isso que levou Shouta a tomar uma decisão. Não importava o que Seiichi lhe pedira antes, o amigo tinha o direito de ser feliz... e Hanako também. A irmã era perfeitamente capaz de lidar com a verdade e, caso não fosse, aprenderia rápido.
- Você está fazendo de novo.
Ele a observou girar nos calcanhares, surpresa e assustada ao ser pega tão obviamente espiando o vizinho. Um ligeiro rubor subiu por suas bochechas, ao mesmo tempo em que ela erguia o nariz, como se a desafiá-lo.
- De novo o quê?
Ele deu um meio sorriso condescendente.
- Você costumava passar horas nessa janela, olhando para ele de longe. Admirando-o em silêncio. Da mesma maneira, aliás, que ele costuma fazer com você.
Hanako estreitou os olhos, encarando o irmão com a expressão confusa e ainda envergonhada.
- Shouta-niisan... Eu não estou entendendo.
Ele sorriu mais uma vez, dessa vez um sorriso triste, encostando-se ao umbral da porta e cruzando os braços sobre o peito.
- Hana-chan... Você sabe por que Seiichi estava com você no dia do acidente?
A moça inclinou ligeiramente a cabeça, sem responder, embora fosse bastante claro por seu semblante que ela não fazia idéia de sobre o quê, exatamente, o irmão estava falando. Assim, Shouta respirou fundo, desviando o olhar por um instante para então focá-lo novamente sobre o rosto dela, sério.
- Vocês tinham saído para um encontro, Hanako. Seiichi e você estavam apaixonados. – o sorriso triste voltou, embora os olhos escuros mostrassem não apenas esperança, como também determinação – Eu acredito que ainda estejam. Da mesma forma que seu coração não esqueceu a música, não pode ter esquecido Seiichi.
Hanako abriu e fechou a boca, os olhos arregalados diante daquela informação. Shouta não saberia dizer se ela estava mais surpresa ou chocada. Sentiu um pequeno aperto no peito, imaginando como a irmã conseguiria digerir aquela informação.
Apesar disso, ele não se sentia arrependido ou preocupado. Confiava em Hanako.
Shouta descruzou os braços e endireitou-se; preparando-se para voltar à cozinha, jogou um último comentário por cima do ombro.
- Vai dar tudo certo, Hana-chan. Eu confio em você.
Satisfeito, girou nos calcanhares, deixando sua irmã sozinha para que ela pudesse analisar o que acabara de ouvir e, com sorte, tomasse uma decisão. E, independente do que ela decidisse, ele estaria lá para apoiá-la. Sempre.