MADRIGAL







Volume 2 - Capítulo 06

Crescendo


Crescendo: Gradualmente mais alto.
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Para ouvirMelody in F. Rubinstein
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- Você tem certeza de que vai ficar bem, Hana-chan? - ele perguntou mais uma vez, ligeiramente apreensivo.

Ela lhe deu um sorriso doce, balançando a cabeça afirmativamente. Shouta suspirou, entregando para a moça o estojo com o violoncelo.

- Se você sentir alguma coisa, ou achar que isso tudo é demais para você, mande uma mensagem que eu vou te buscar. - ele reafirmou – Estarei com meu celular ligado o tempo todo – o rapaz a encarou mais uma vez, longamente - Você não precisa fazer isso agora, Hana-chan.

- Está tudo bem, oniisan. - ela respondeu, de forma calma - Eu quero fazer isso.

Shouta soltou um novo suspiro, até que Seiichi decidiu finalmente intervir, colocando uma mão sobre o ombro do amigo.

- Vamos andando, Shouta-kun. Nós temos aula também. Shiraishi-san ficará bem.

Finalmente o mais velho assentiu, observando a irmã se afastar até o final do corredor para então desaparecer numa das salas. Só então ele se voltou para o amigo, encarando Seiichi pensativamente.

Era início de primavera - mais de quatro meses passados desde o acidente de Hanako - e eles estavam de volta às aulas. A irmã insistira em voltar a freqüentar a Academia, ainda que não tivesse havido qualquer avanço em termos de recuperação de sua memória.

Shouta lançou um discreto olhar de esguelha para o amigo, que o acompanhava em silêncio, balançando ligeiramente seu violino na mão direita.

De todas as pessoas afetadas pela amnésia de Hanako, muitas vezes ele pensara consigo que fora Seiichi quem sofrera a maior perda. Claro que o baque fora grande para Shouta e os pais. Eles eram família, tinham estado com a jovem desde o início. Mas, exatamente porque eram família, ainda que não se lembrasse deles ela não os podia evitar.

Seiichi, contudo, era uma outra história.

Tinha sido óbvio para Shouta, desde o primeiro momento, que o amigo gostava de sua irmã. A verdade é que, ainda que tivessem sido colegas de turma desde seu primeiro ano na Academia, não fora antes de testemunhar o preciso momento em que Seiichi e Hanako se enxergaram pela primeira vez que Shouta se aproximara daquele que viria a ser seu melhor amigo.

Ele se lembrava perfeitamente daquele dia. A chuva caíra de repente, uma típica tempestade de verão. Hanako não levara guarda-chuva consigo e, como estivera gripada aquela semana, telefonara para ele pedindo-lhe que fosse buscá-la – o irmão não tivera aula aquele dia e ficara em casa, responsável pela limpeza.

Saíra às pressas do apartamento. Hanako fora pega pela chuva quando atravessava o parque a alguns quarteirões de onde eles moravam, conseguindo abrigo sob um caramanchão.

A melodia do cello o guiara pelas alamedas de flores. A essa altura, a tempestade já serenara o suficiente para ser considerada apenas uma garoa e havia diversas réstias de sol ao longo do caminho.

Havia um pequeno aclive que ele precisava descer antes de alcançar o caramanchão, e foi justamente quando terminava a descida que percebeu que a irmã não estava sozinha – embora duvidasse muito de que ela tivesse consciência desse fato.

Pelo que podia perceber da bolsa solta no chão, junto com o estojo do violino e alguns outros objetos, o rapaz tinha estado sentado sob o ipê que usava agora como ponto de equilíbrio.

Shouta o reconhecera de perfil como sendo seu misterioso e taciturno colega de classe, Minamoto Seiichi. Seus cabelos escuros estavam molhados, a água lhe escorria pelo rosto enquanto observava a cena à sua frente com uma expressão de absoluto enlevo.

Hanako estava sentada sob o caramanchão de treliças brancas coberto de hera e cercado de roseiras. Segurava o violoncelo contra si, os olhos cerrados e um sorriso tranqüilo de contentamento no rosto, enquanto as notas da Melodia em Fá reverberavam ao seu redor.

A jovem era sua irmã e aquele rapaz um quase desconhecido. Apesar disso, Shouta sentiu como se invadisse um momento muito pessoal, assistindo, deslocado sob seu guarda-chuva preto debaixo de um céu já quase sem nuvens, àquela cena inteiramente poética.

Sem se dar conta do que fazia, ele deu as costas aos dois, tornando a subir pelo caminho por onde viera imerso numa espécie de encantamento. Meia hora depois Hanako aparecia à porta, silenciosa; e nem ela perguntou porque ele não fora buscá-la, nem ele questionou sua demora.

Shouta nunca soube o que transpirara no parque depois que ele se fora. Não sabia se Hanako chegara a notar a presença de Seiichi ou se o rapaz se apresentara, e se ele viera deixá-la em casa – e, à época, Shouta sequer sabia que o outro rapaz morava no prédio em frente.

O tempo passou. Por dois longos anos ele observou o amigo e a irmã dançarem ao redor um do outro sem nunca colocarem a claro o que sentiam, embora fosse óbvio para Shouta que eles se gostavam – e não era o tipo de gostar adolescente, a excitação do novo, do misterioso; mas sim um sentimento tranqüilo, doce, confortável.

Havia um motivo importante para Seiichi estar no local do acidente. Hanako não sabia disso – o amigo pedira expressamente a Shouta que ele não dissesse. A jovem provavelmente achava que os dois estavam saindo da Academia ou se encontraram a caminho de casa...

A verdade, porém, é que eles tinham saído num encontro: o primeiro encontro deles.

Shouta se lembrava de como se sentira quando a irmã saíra naquela manhã para o almoço com Seiichi. Ele estava contente porque sabia que o amigo decidira marcar o encontro para, finalmente, colocar seus sentimentos e todas as cartas na mesa; e também conhecia Hanako suficientemente para saber qual seria sua resposta.

Ao mesmo tempo, contudo, ele se descobrira um tanto perdido. Até então havia sido os três sempre juntos – ao lado da música, a maior constante em sua vida. Shouta não sabia como seriam as coisas quando os dois se acertassem, se haveria espaço para ele entre Hanako e Seiichi.

Naquele dia, Seiichi dissera a Hanako que a amava. Era para ser o dia mais feliz da existência deles. Mas então um bêbado ultrapassou o sinal vermelho, perdeu o controle da direção e Hanako... Hanako quase perdera a vida. E depois...

Dois anos para conseguir agir em seus sentimentos, e quando Seiichi finalmente conseguia alcançar Hanako, ela perdia completamente a memória. Dois anos em que Shouta observara a relação deles soar como um crescendo, aproximando-se pouco a pouco de seu ápice, as notas cada vez mais altas e límpidas até que, de repente, tudo viesse abaixo com um único gesto descuidado do regente.

Na página em branco da memória de Hanako, Seiichi não era mais importante que uma clave de Sol. A partitura que tinham escrito juntos, até então, desaparecera. Shouta se perguntava se havia alguma forma de reavê-la. E, caso contrário, se Seiichi e Hanako estariam dispostos a reescrevê-la do princípio.

Os olhos do rapaz pousaram sobre o quadro de avisos à frente da sala deles. Ao seu lado, Seiichi também parou, lendo os recados e lembretes da Academia.

- O Concerto de Primavera vai ser daqui a duas semanas. O que será que a turma vai preparar esse ano? – ele ouviu o amigo perguntar.

Shouta inclinou ligeiramente a cabeça, lendo o anúncio. Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios ao lembrar-se dos concertos de primavera em anos anteriores, onde eles tinham tocado ou apenas assistido.

- Desde que não decidam nos colocar em roupas de mulher... – ele riu, voltando-se para Seiichi – Hana-chan vai gostar disso. Vamos todos juntos? O amigo assentiu, sorrindo também. Shouta ergueu os olhos mais uma vez para o quadro. Talvez ele não precisasse se preocupar. Talvez a melodia ainda estivesse lá, apenas num tom diferente. Crescendo, crescendo, caminhando para uma magnífica apoteose.

E Shouta estaria lá quando isso acontecesse. Como sempre estivera. Desde o início.