MADRIGAL







Volume 2 - Capítulo 05

Lacrimoso


Lacrimoso: Peça tocada de forma triste, capaz de causar lágrimas.
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Para ouvirAve Maria. Schubert
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Ele soltou um suspiro de alívio ao se ver diante de seu prédio. O dia tinha sido terrivelmente cansativo e ele mal podia esperar por colocar o pé no apartamento, tomar um banho quente e se enfiar na cama em seguida.

Para seu completo descontentamento, chegando ao saguão de entrada descobriu que o elevador estava em manutenção. Para ser exato, os dois elevadores estavam em manutenção. Não lhe restava muita escolha, se queria chegar em casa, além de se dirigir à escada.

O primeiro lance de degraus a caminho do décimo segundo andar foi percorrido ao som de uma série de profanidades, num passo rápido, e ao final deles Shouta já se sentia completamente exausto. O segundo lance ele subiu mais devagar, terminando por se sentar no alto da escadaria para descansar.

Aqueles últimos meses tinham sido complicados. Na verdade, complicado parecia um eufemismo – talvez a expressão mais correta fosse a imagem do Inferno.

Primeiro, o acidente. Semanas sem ter certeza se sua irmã acordaria e se, acordando, haveria alguma seqüela. Depois, a amnésia. A princípio, quando a jovem demonstrou ter muitas das habilidades e pequenas manias da Hanako com quem ele convivera toda a vida, tivera a esperança de que não demoraria muito para ter sua irmã de volta.

Os dias se somavam um a um, porém, e Hanako não se recordava de nada. Ela sabia das coisas: sabia cozinhar, sabia ler e escrever, sabia que Beethoven compusera a 5ª Sinfonia e que Tchaikovsky escrevera O Quebra-Nozes... mas nada disso guardava qualquer importância para ela.

Shiraishi Shouta não era conhecido como uma pessoa pessimista. Pelo contrário, ele sempre se orgulhara de enxergar o melhor nas pessoas e situações. Ele era aquele que estava sempre encorajando os outros, confiante de que tudo daria certo.

Contudo, a cada dia que se passava ele achava mais difícil ter esperança de que acordaria um dia de manhã e se depararia com sua irmã, a verdadeira Hanako, e não a pessoa quebrada que o aguardava no apartamento.

Shouta sabia que a moça estava se esforçando, que ela queria, desesperadamente, se lembrar. O que Hanako não compreendia – e que ele não sabia como verbalizar – era que recuperar sua memória não era o mais importante.

Não... para Shouta, o mais importante é que ela parasse de esconder o que sentia. Que admitisse que doía. Que pedisse ajuda. Em vez disso, ela se exauria em aparentar que estava tudo bem quando, obviamente, não estava.

Ele queria que sua irmã recuperasse a memória, é claro, mas não tanto para que pudesse se lembrar dele ou deles, mas para que Hanako pudesse, enfim, encontrar alguma semelhança de paz.

Ao final das contas, o que realmente importava é que ela se sentisse feliz.

Seiichi dissera que ela pediria ajuda ou conversaria quando se sentisse pronta. Que eles precisavam dar espaço a ela. Shouta acreditara que ela se abriria quando, após terem chegado ao apartamento, a irmã chorara em seus braços. Mas, desde então, ela voltara a se fechar em si mesma, repetindo que estava tudo bem, que ela estava bem.

Nisso ela era extremamente parecida com a Hanako de antes, o que o deixava ainda mais aflito. Era próprio dela guardar o que sentia para não preocupar os outros. Desde pequena, a única forma pela qual ela realmente deixava extravasar seus sentimentos era pela música, mas a moça não tivera sequer coragem de abrir o estojo do violoncelo.

Sem o cello e com o torvelinho de emoções que o acidente e a amnésia tinham lhe causado, era de se perguntar como ela ainda não explodira.

O rapaz soltou mais um suspiro antes de se colocar novamente de pé, voltando a galgar os degraus. Aquele, de fato, não estava sendo um bom dia. Se não fosse por seus créditos na academia dependerem das atividades que vinha desenvolvendo nas férias, nunca teria saído de casa naquela manhã, deixando Hanako sozinha.

O problema não era exatamente seu trabalho. Ele gostava de visitar o orfanato e ensinar música às crianças. Se não tivesse isso por obrigação e fossem outras as circunstâncias em que se encontrava, teria se aplicado ao trabalho voluntariamente.

O problema, realmente, não era com seu trabalho. Não mesmo. Seu problema – que tivera durante todo o ano anterior – era Tagata-sensei.

Tagata Aoi, a professora de teoria musical, membro mais jovem do corpo docente da Academia. Tagata Aoi, a pianista vencedora de uma bolsa de estudos em Viena muito antes de ele sonhar em seguir carreira como músico. Tagata Aoi, solista convidada para se apresentar com orquestras no mundo inteiro. Tagata Aoi, o mais fantástico espécime feminino que ele já conhecera.

Ele realmente estava com problemas...

Aqueles pensamentos não ajudavam em nada a melhorar seu humor. Shouta bufou, ajeitando o estojo do violino no ombro. Ao menos ele se distraíra com sua miséria o suficiente para subir mais oito andares sem sequer notar.

Finalmente chegou ao décimo segundo. Parando frente à porta do apartamento que dividia com a irmã, preparou-se mentalmente antes de entrar. Hanako já tinha o suficiente em mãos, não precisava ter de lidar com as loucuras dele também.

Procurou as chaves no bolso e, no momento em que se preparava para destrancar a fechadura, o som melancólico do cello atingiu-o em cheio.

Com os olhos arregalados, Shouta abriu e fechou a boca duas vezes para a porta; quando deu por si, percebeu que a mão tremia sobre a chave. Conhecia aquela harmonia, o jeito cuidadoso de tocar, cada nota ecoando limpa e clara ao seu redor.

Sem esperar mais, ele terminou de abrir a tranca e não perdeu tempo sequer em empurrar a porta: marchou direto da sala para o quarto da irmã.

E lá estava ela: olhos cerrados, dedos longos percorrendo céleres as cordas do instrumento, firmes e precisos em seus movimentos. Não havia partitura à frente dela – Hanako tocava de cabeça a melodia da Ave Maria de Schubert.

A primeira lágrima escorreu sem que ele tivesse consciência, sendo logo seguida por outra e mais outra e mais outra – lágrimas grossas e silenciosas que rolavam independentemente de sua vontade.

Não importava mais se Hanako se lembraria ou não. Ela voltara a tocar. Isso era tudo o que ele precisava para saber, com certeza, que eles ficariam bem.