MADRIGAL
Volume 1 - Capítulo 04
Appassionato
Appassionato: Passionalmente.
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Para ouvir – Träumerei. Schumann
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Os dias logo se transformaram em semanas. Aos poucos, eles pareciam entrar numa rotina familiar que lhes parecia inteiramente habitual.
Ela acordava cedo e preparava o café da manhã - não demorou muito para Hanako perceber que se mover na cozinha era quase instintivo, como se tivesse feito aquilo sua vida inteira. Shouta aparecia pouco depois, contando sobre o sonho que tivera na noite anterior - geralmente coisas bizarras, como notas musicais gigantes tentando devorá-lo.
No exato momento em que ele se acomodava em sua cadeira - nem um minuto antes, nem um minuto depois -, a campainha tocava, forçando o moreno a se levantar de novo para atender a porta, revelando Seiichi que, desculpando-se profusamente pelo trabalho que dava, chegava com uma sacola de pães.
O café da manhã na residência dos irmãos Shiraishi era à moda ocidental - visto Shouta acreditar piamente que a dieta de arroz bem cedo, ao meio-dia e à noite o transformaria numa grande tigela do cereal branco.
Como estavam nas férias de inverno, não tinham aula. Assim, após o café, ou ficavam na sala de estar, assistindo TV, ou saíam para mostrar a cidade a Hanako, tentando despertar alguma memória da jovem.
Ao menos ela parecia ainda gostar das mesmas coisas, reagindo de maneira positiva ao entrar em contato com elas. Para Hanako era um alívio descobrir que, mesmo não se lembrando, de alguma forma ela continuava a ser ela.
A prova disso veio quando assistiu ao seu primeiro jogo de baseball. Shouta se recusara a levá-la ao estádio, argumentando que ela ainda não tinha condições para tanto; de modo que optaram por se reunir no apartamento de Seiichi - um flat grande para um universitário vivendo sozinho em Tóquio -, o que fizera Hanako concluir que a família Minamoto deveria ser rica. Havia um belo piano no canto da sala. Quadros abstratos de cores suaves enfeitavam as paredes, e os vasos de plantas se multiplicavam pelos cantos da casa.
De alguma forma que não conseguia explicar, Hanako acreditava que aquele apartamento refletia exatamente a personalidade de Seiichi: relaxante, calmo, até um pouco meditativo.
O mais importante, contudo, era que Seiichi morava exatamente do outro lado da rua, e que – como ela descobrira naquele exato momento - da janela de seu quarto a jovem tinha uma visão privilegiada da sala onde o rapaz encontrava-se agora sentado junto ao piano.
Apesar da distância, concentrando-se o suficiente ela podia ouvir algumas das notas soltas trazidas pelo vento que soprava em sua direção. A brisa fria de final de inverno fazia as cortinas brancas movimentarem-se devagar, como se acompanhassem a melodia dissolvida no ar; com espanto, Hanako descobriu que sabia exatamente o que o rapaz estava tocando.
Träumerei, de Schumann, era o sétimo movimento dos treze solos de piano que compunham Cenas de Infância. O compositor o dedicara à Clara Wieck, pianista a quem fazia a corte e com quem depois se casou. Aquela era uma canção de amor.
A moça sentiu algo estranho no peito, como se seu coração se contraísse pesadamente. Ela não sabia como interpretar isso, mas, de alguma forma, sabia que não era uma seqüela do acidente.
Aquele era o mesmo sentimento que experimentava toda vez que encarava o estojo fechado de seu violoncelo. Com esse pensamento ela se voltou para o objeto intocado no canto do quarto, onde estava desde antes de seu acidente.
Quando chegara ao apartamento após a alta do hospital, Shouta perguntara se ela não queria vê-lo. Desde então, diversas vezes, o irmão indagara se a jovem não queria tocar; oferecera-se para afiná-lo e até mesmo lustrá-lo. Nada, porém, fizera com que ela quisesse ver o cello fora de seu confinamento.
Hanako sabia que o irmão estava surpreso com esse comportamento, mas deixara de pressioná-la – e ela tinha um pressentimento de que isso se devia a Seiichi. De tudo o que aprendera naqueles dias, parecia-lhe que o amigo interpretava o papel de mediador, sendo parte tão intrínseca da família quanto ela mesma e Shouta.
A verdade era que Hanako estava com medo. Em sua missão de redescobrir-se através dos pequenos detalhes que deixara como mementos de sua vida passada, destacava-se o fato de que a música representava grande parte do que ela era. Toda sua vida, tudo que ela amava, sua identidade, sua própria forma de se comunicar com o mundo passavam pela música.
Se a música lhe fora tirada, o que restaria dela? Que sentido ela daria àquela segunda chance, à oportunidade, ao milagre que fora sua sobrevivência?
A idéia de segurar o cello, de correr seus dedos pelas cordas, de criar melodia... Hanako desejava ardentemente ser capaz de fazê-lo. Contudo, se agisse em seu impulso e descobrisse que não sabia exatamente o que fazer, que era incapaz de tocar... aquilo a deixava apavorada.
Claro, ela poderia reaprender... Mas não seria a mesma coisa. Não seria a mesma música, não seria... não seria ela.
Evitando o violoncelo, ela evitava partir o próprio coração... mas, sem ele, não havia um propósito para que seu coração continuasse batendo. Se conhecessem seu pensamento, outras pessoas certamente diriam que estava sendo ingrata, que não merecia aquela oportunidade. Hanako sabia, porém, que não estava dramatizando. Nenhum deles tinha perdido uma parte tão importante de si mesmos para compreenderem aquela sua insegurança.
Ela fechou os olhos, os últimos acordes de Träumerei flutuando no ar ao seu redor. Algo em seu peito estourou, como se uma represa viesse abaixo e, quando reabriu as pálpebras, seus orbes escuros caíram sobre a caixa preta do violoncelo com determinação.
Não podia continuar vivendo naquele limbo. Precisava dar um rumo à sua vida, decidir o que fazer a partir dali. Para isso, ela precisava descobrir se ainda era capaz de trazer o cello à vida, e fazer isso enquanto tinha coragem para tanto.
Com movimentos lentos e delicados, completamente opostos ao torvelinho emocional que lhe ia por dentro, ela se sentou na cadeira junto ao estojo, puxando as travas para cima. Dando-se um minuto para respirar fundo, ela afinal abriu a tampa.
Não era um instrumento de marca; tinha sido feito sob medida. A madeira era escura – ébano –, e ela podia ver seus veios sob o verniz. Estava impecavelmente limpo – não havia uma única marca de digitais ou quaisquer outras manchas.
Ela depositou o apoio no chão antes de levantar o violoncelo, encaixando o espigão no apoio. O arco estava preso à tampa, e ela o tirou da caixa com o mesmo desvelo inicial. Devagar, Hanako se aprumou na cadeira, segurando o instrumento cuidadosamente contra si.
Uma a uma a moça testou as cordas, deixando-se envolver pela sonoridade de cada uma delas. Estavam afinadas, e ela sentiu uma fagulha de esperança ao perceber que ainda podia dizer com segurança algo desse tipo.
Colocando-se em posição Hanako ergueu o arco e, pela primeira vez desde o acidente, o mundo parecia fazer sentido outra vez.