MADRIGAL
Volume 1 - Capítulo 03
Capriccio
Capriccio: Peça rápida, leve e improvisada.
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Para ouvir – Caprice #24 in A Minor. Paganini
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- E este, claro, é o seu quarto. - Shouta anunciou, empurrando a porta com o corpo enquanto carregava as sacolas com as coisas dela para dentro.
Hanako observou o aposento, tentando encontrar algo de familiar, alguma coisa que engatilhasse uma memória, mas não teve sorte. Contudo, Shouta a observava cheio de expectativa, e ela precisava dizer alguma coisa.
- Parece... confortável.
Era verdade. Os móveis, todos em cores claras, combinavam com as paredes brancas; apenas aquela frente à cama era pintada em azul-bebê, e exibia um grande mural de fotos. Havia uma estante de livros e CDs, e uma bancada de estudo.
Os olhos dela percorreram todas aquelas superfícies, demorando-se um instante no mural antes de caírem pesadamente sobre uma grande caixa preta encostada à parede junto à bancada.
Shouta deu um meio sorriso ao perceber o que ela olhava e, largando a bagagem do hospital sobre a cama, dirigiu-se ao objeto.
- Esse é o seu violoncelo. - ele esperou um minuto por alguma reação; como não houve nenhuma, continuou - Você quer que eu abra?
- Não. - a resposta foi curta e imediata.
O rapaz encarou-a com surpresa, mas não insistiu. Hanako desconfiava de que isso se devia ao fato de que o irmão não sabia exatamente como agir ao redor dela; porque, se soubesse, insistiria até que ela desse o braço a torcer.
- Tudo bem. - ele concordou, meio forçadamente - Eu vou... deixar você se adaptar. Lembre-se que okaasan passará aqui mais tarde para irmos jantar. Eu vou ver o que temos para o almoço.
Hanako suspirou, lembrando-se de dois dias antes, quando seu pai partira quase em lágrimas porque precisava voltar aos negócios em Okinawa, deixando a ex-mulher triunfante para passar muito mais tempo com a filha e, com sorte, fazer-lhe uma lavagem cerebral para que a moça não gostasse dele - ou, pelo menos, fora isso que Shouta explicara à irmã.
Ela gostaria de entender porque os pais eram tão avessos um ao outro. Afinal, eles tinham passado quase duas décadas juntos, tendo dois filhos nesse decorrer. Além disso, observando-os durante os dias que tinha ficado no hospital, ela notou que suas discussões pareciam guardar certo afeto.
- Arigatou, oniisan. - ela respondeu, num tom baixo.
Ele abriu a boca como se fosse dizer mais alguma coisa, mas contentou-se em apenas dar de ombros, deixando-a sozinha. Por alguns minutos ela permaneceu em seu lugar junto à entrada, sentindo-se estranhamente tímida.
O quarto de uma pessoa pode dizer muito sobre ela - é o seu santuário, o lugar que reflete sua intimidade. Para Hanako, era como se estivesse invadindo o quarto de um estranho, usurpando um lugar que não lhe pertencia.
Levou algum tempo para que ela conseguisse se mover, caminhando até parar diante do mural que primeiro lhe chamara a atenção quando entrara.
A figura da jovem de cabelos castanhos e olhos escuros cheios de sonhos repetia-se em várias fotografias - era a mesma estranha que a encarava de volta quando se via no espelho, seu reflexo apenas um pouco mais pálido e franzino.
Havia fotos com seus pais: de quando estavam casados e moravam todos juntos, e outras já após a separação, em - ao menos ela imaginava - Okinawa e Hokkaido. Muitas a traziam com Shouta junto a outras pessoas que ela não conhecia - colegas de ambos, provavelmente. Morinaga-sensei não permitira muitas visitas no hospital para não sobrecarregar sua mente já confusa, de modo que ela só tinha tido contato com os pais, o irmão, Seiichi e o pessoal do hospital.
Franziu o nariz ao descobrir nem sombra da familiar figura de cabelos brancos em meio às fotos. Considerando a proximidade que Seiichi demonstrava tanto com Shouta quanto com ela, ele praticamente pertencia à família. Então, por que não havia fotos dele ali?
Foi quando uma das fotografias lhe chamou particular atenção: em sépia, tinha uma aparência antiga, reforçada pelo fato de que as três pessoas que posavam para a câmera vestiam roupas de época. Contudo, ela podia reconhecer a si mesma no centro, abraçando seu violoncelo, usando um vestido que parecia saído de uma peça barroca.
Shouta e o outro rapaz, de cabelos escuros, seguravam seus violinos. Ela estreitou os olhos, notando algo de familiar no rapaz desconhecido, sem ter certeza do que seria. Talvez...
- Eu me lembro desse dia. Nós tínhamos acabado de sair do Festival de Primavera.
Ela se virou, assustada, deixando a fotografia escorregar de suas mãos. Seiichi imediatamente se abaixou para recuperá-la.
- Sumimasen, Shiraishi-san. Não quis assustá-la. Shouta ia sair quando cheguei, e me pediu para avisá-la que ia ao mercado comprar alguma coisa. Eu bati à porta, você não respondeu; então...
- Daijoubu. - ela balançou a cabeça, interrompendo-o - Então... é você, na foto?
Ele assentiu, devolvendo-a para a moça. Hanako analisou a imagem mais uma vez, enquanto ele voltava à história.
- Minha turma fez uma apresentação chamada Nos Salões de Viena. Shouta conseguiu convencer você a participar, apesar das suas obrigações na sua classe. Foi um dia extremamente cansativo... Por um motivo ou outro, quando fomos voltar para casa, saímos da escola com as roupas da apresentação. - ele sorriu - Um monte de gente parava para nos olhar, mesmo porque Shouta fala muito alto. Há um parque aqui perto, subindo a rua. Quando chegamos lá, seu irmão decidiu que queria tocar e tanto insistiu que não tivemos escolha além de acompanhá-lo no improviso.
Hanako riu baixinho.
- Eu imagino que realmente não tínhamos escolha. Mas, Minamoto-san... Por que seu cabelo está escuro na foto?
Ela ergueu os olhos no mesmo momento em que ele abaixou a cabeça.
- Meu cabelo era preto. - ele respondeu, voltando a encará-la para então apontar para outra foto, dessa vez, colorida.
A moça piscou os olhos, virando-se na direção que ele indicara. Agora que sabia o que procurar, descobriu que havia muitas fotos suas com Shouta e Seiichi. Como não reconhecera antes os olhos escuros e expressivos? Era difícil perder um fato tão óbvio, mas, como poderia adivinhar que ele descolorira o cabelo?
- Foi uma mudança bem radical. - ela comentou, torcendo para que ele explicasse o motivo para aquilo.
No entanto, ele apenas deu de ombros.
- Às vezes precisamos de mudanças.
Desta feita, foi Hanako quem abaixou a cabeça. Seus olhos percorreram o chão, parando ao pé da caixa de seu violoncelo. Rapidamente ela desviou o olhar e caminhou até o outro lado do quarto, para observar o conteúdo da estante.
Havia dezenas de CDs enfileirados, a maior parte de música clássica, embora houvesse alguns títulos que destoassem do conjunto - pelos nomes, grupos ingleses ou americanos, provavelmente. Do lado oposto, estavam os livros: História da Música, Teoria Musical, História Social do Jazz, Fundamentos da Música Clássica, biografias de compositores...
Música parecia ocupar boa parte de sua vida. Mas, o que mais ela gostava de fazer? Nunca tinha lido nenhum romance? Não pintava, ou dançava, ou fazia qualquer coisa de diferente além de mergulhar em sua música?
- Minamoto-san... - ela chamou, sem se voltar para ele - Eu tenho algum hobby além de... bem, além do óbvio?
- Você gosta de baseball. - foi a voz de Shouta que respondeu, da entrada do quarto - Sempre me pedia que a levasse aos jogos da Liga Nacional.
- Baseball? - Hanako questionou, franzindo o nariz.
- É! - Shouta continuou, abrindo os braços - Você sabe, eles seguram tacos e tem um cara com a luva que...
- Eu sei o que é baseball, niisan. - ela o interrompeu com um pequeno suspiro - Só estou um pouco surpresa. - a moça inclinou ligeiramente a cabeça - Já voltou do mercado?
Ele sorriu.
- Eu comprei sorvete. Para depois do almoço.
Hanako assentiu, voltando-se para Seiichi.
- Minamoto-san, você almoça conosco?
- Não é preciso convite, ele sempre come aqui. - Shouta dispensou uma resposta do amigo, abanando a mão - O cara é incapaz de ferver água sozinho, até hoje não consigo entender como deixaram você vir morar sozinho, Seiichi.
O outro rapaz corou e, para poupá-lo de qualquer outro comentário embaraçante do irmão, a jovem decidiu chamar a atenção de volta para si.
- Oniisan, eu quero ir a um jogo de baseball. - ela pediu - Creio que tenho muito a aprender lá.
Shouta revirou os olhos.
- Não é exatamente onde eu gostaria de levá-la, mas... Não se preocupe, Hana-chan... - o tom dele agora era afetuoso - Nós vamos te ensinar tudo o que você precisa saber.
Hanako teve a impressão de ouvir Seiichi murmurar algo que soava como um é isso que me preocupa, mas estava demasiadamente presa à súbita intensidade da expressão do irmão para prestar atenção.
- E o que eu faço enquanto não aprendo, niisan? - ela perguntou, sentindo os olhos coçarem ligeiramente, ao mesmo tempo em que se sentia surpresa com sua própria reação a ele.
Sua resposta foi um abraço caloroso. Shouta passou os braços por sua cabeça, quase não deixando espaço para que ela respirasse.
- Nós improvisamos, Hana-chan. - ele murmurou ao seu ouvido com voz rouca, como se tentasse controlar sua própria emoção.
Pela primeira vez desde o acidente Hanako deixou as lágrimas fluírem, sem se preocupar em escondê-las.