MADRIGAL







Volume 1 - Capítulo 02

Adagio


Adagio: Andamento musical lento, suave.
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Para ouvirLe Cygne. Camille Saint-Saëns
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Seu nome era Shiraishi Hanako, tinha dezenove anos e estudava música. Seus pais tinham se separado há dois anos e agora moravam cada um de um lado do Japão – o pai em Okinawa, a mãe em Hokkaido. Ela e Shouta – que era seu irmão mais velho – por dois anos tinham ficado em Kanagawa e depois se mudado para Tóquio, a fim de estudarem. Minamoto Seiichi – o rapaz de cabelos brancos e olhos expressivos – era o melhor amigo de Shouta e os dois eram seus sempais no curso de música.

Sua cor favorita era verde; ela amava Mozart e detestava profunda e irracionalmente beterrabas. Era estudiosa e esforçada, um pouco tímida também, embora sempre defendesse suas opiniões, quando necessário, com uma paixão que todos se surpreendiam que ela tivesse.

Aqueles eram alguns dos pequenos detalhes que formavam a pessoa conhecida por ‘Hanako’: fatos aleatórios, peças de um quebra-cabeça que ela não tinha sequer noção de como montar e nem de como ele se pareceria quando – e se – ela o terminasse.

Morinaga-sensei, a médica responsável por seu caso, explicara que eram comuns casos de amnésia e confusão mental após traumas como os que ela recebera – a batida que dera com a cabeça fora violenta e provocara uma hemorragia interna que tinha levado horas de cirurgia para ser controlada. Era um milagre que ela houvesse sobrevivido e ninguém ainda podia ter certeza da extensão dos danos causados.

Os primeiros dias tinham sido estranhos, é claro. Em primeiro lugar, ela estava cercada de pessoas que lhe eram completas estranhas, mas que a conheciam por toda a sua vida e que tinham uma ou outra história para lhe contar – uma peça a mais para adicionar ao seu já complexo quebra-cabeça. Pessoas que, no momento, conheciam-na melhor do que ela mesma.

Depois, havia o fato de que todos pareciam estar “pisando em ovos”, como se esperassem que ela tivesse alguma espécie de ataque histérico a qualquer momento ou entrasse em choque. Afinal, todo o seu passado, sua própria identidade, tinham subitamente evaporado de sua cabeça.

Seus pais – que tinham de alguma forma superado o antagonismo que sentiam um pelo outro e coexistiam agora na mesma cidade, embora, claro, em hotéis diferentes – tratavam-na como se ela fosse uma boneca de porcelana, sempre reclamando que estava muito quente ou muito frio para ela (geralmente, opiniões discordantes), que a cama estava muito baixa ou muito alta, que a comida era muito pesada ou muito leve e outras coisas do tipo.

Shouta parecia querer explodir em lágrimas toda vez que entrava em seu quarto. Tentativamente, uma semana depois de acordar e ser apresentada a seus familiares, ela o chamara de oniisan, o que rendera uma crise épica de choro, com direito a soluços, gaguejar e promessas de que tudo ficaria bem, de que ele passaria o resto da vida cuidando dela e outras variantes.

Seiichi, embora não fosse de sua família, era presença constante no hospital. Talvez pelo fato de que ele fora o responsável por seu “salvamento” – da maneira que Shouta falava e agradecia, era de se desconfiar que o rapaz fora o responsável pela cirurgia, pelos remédios e pelo próprio milagre de sua sobrevivência.

De qualquer forma, ele era o único que parecia ter encontrado alguma semelhança de normalidade em sua presença – não que ela tivesse alguma lembrança de como era o rapaz antes do acidente. Era Seiichi que usualmente se sentava ao seu lado, comentando sobre seu dia, sobre os colegas e os desejos de melhoras que todos faziam para ela e, quando a garota pedia, contava histórias da Hanako que ela fora um dia.

Diferente das expectativas de todos, contudo, a moça não entrou em choque. No dia seguinte ao seu despertar, ela tivera uma longa e franca conversa com Morinaga-sensei. A médica afirmara que ninguém acreditava que houvesse alguma chance de ela sobreviver quando chegara ao hospital, coberta de sangue e feridas.

Depois de compreender o estado em que tinha ficado após o acidente – incluindo aí as costelas e a perna quebradas, os vários hematomas e lacerações – Hanako chegou à conclusão de que, como sua médica afirmara, era realmente um milagre que ela estivesse viva e que, talvez, a perda de sua memória tivesse sido o preço a pagar por esse milagre, uma espécie de sacrifício em troca de algo maior.

Claro que ela chorara e perdera o sono tentando descobrir o que viria a seguir, o que ela faria de sua vida – mas sempre quando estava sozinha, sem ninguém que pudesse testemunhar sua confusão.

Os outros já estavam sofrendo demais por sua causa.

Aceitar que não fazia idéia alguma de quem ela era não fora fácil. Dependia daquilo que os outros pensavam, daquilo que eles sabiam e da maneira como eles tinham interpretado os acontecimentos em que ela estivera envolvida para se reencontrar. Contudo, de uma forma ou de outra, ainda que no compasso de um bebê que aprende seus primeiros passos, ela faria o possível para conseguir se lembrar.

- Shiraishi-san?

Ela tirou os olhos do livro aberto em seu colo - há muito que tinha deixado de ler, perdida em seus próprios pensamentos - para cravá-los na face do recém-chegado.

- Ohayo, Minamoto-san. - ela respondeu - Oniisan está com você?

- Ele está fazendo prova. - o rapaz respondeu, sentando-se ao lado dela.

A moça estreitou ligeiramente os olhos, franzindo o nariz - um hábito que todos tinham afirmado lhe era inteiramente usual e que provavam que, ainda que ela tivesse se esquecido de tudo, seu corpo ainda lembrava.

- Você não deveria estar lá também?

Seiichi balançou a cabeça.

- Iie, eu passei direto. Mas Shouta sempre enrola demais para estudar... Eu acho que ele conseguiu a façanha de fazer todas as finais das disciplinas teóricas existentes no curso.

Hanako observou-o, séria.

- Por que ele continua então? Se ele fica em todas as finais e não se esforça, talvez ele não...

- Shouta é talentoso. Todo mundo, inclusive os professores, reconhece isso. Como todo mundo concorda que ele é muito bom, Shouta não estuda, preferindo confiar apenas na própria habilidade. - ele deu um meio sorriso - Você, por outro lado, parecia se esforçar pelos dois. Você costumava dizer que, embora em termos de performance nunca pudesse bater seu irmão, em técnica você acabava com ele. Besteira, na minha opinião. Sempre achei você muito mais cativante que Shouta-kun.

A preocupação foi substituída por curiosidade nos olhos da moça quando um súbito rubor afluiu ao rosto do rapaz. Embora ela não tivesse esquecido coisas como escrever e ler ou mesmo coisas como história, geografia, gramática e variantes, uma série de convenções sociais e experiências simples tinham sumido de sua mente.

Ela não fora capaz, por exemplo, de comer com garfo e faca - embora tivesse se saído extremamente bem com hashis. E, nesse momento, ela também não entendia como ou por que o amigo subitamente mudara de cor.

- Por que você ficou vermelho?

Foi a vez de Seiichi encará-la com curiosidade, antes de soltar um pequeno suspiro resignado.

- É uma reação inconsciente do corpo.

Mais uma vez ela franziu o nariz.

- Uma reação para o quê?

- Só uma reação, Shiraishi-san. Não significa...

- Para toda ação existe uma reação. - ela insistiu, interrompendo-o - Se você disse que é uma reação, então tem de haver uma ação por trás.

Um meio sorriso escapou dos lábios do rapaz.

- Só você se esqueceria do que significa ruborizar e se lembraria das leis de Newton... - ele balançou a cabeça.

Hanako, obviamente, não se deu por vencida, percebendo que ele tentava encontrar alguma maneira de escapar de sua pergunta.

- Por que você ficou vermelho, Minamoto-san? - ela questionou, encarando-o firmemente.

- Você não perde o foco mesmo. - ele balançou a cabeça de novo - Há vários motivos para uma pessoa ficar vermelha, Shiraishi-san. Pode acontecer quando estamos com calor, ou porque estamos bravos ou ainda por estarmos envergonhados. Não é algo sobre o que tenhamos poder, acontece sem percebermos.

A resposta deixou-a satisfeita e ela se recostou nos travesseiros, ajeitando-se um pouco na cama. Pelo canto dos olhos ela percebeu que Seiichi a observava, como se esperasse que ela continuasse a questioná-lo.

O silêncio que se seguiu era tranqüilo, plácido. Hanako ergueu os olhos para a janela, observando a paisagem que se descortinava por ela - os galhos nus de uma árvore que crescia junto à parede do hospital, a neve que caía devagar, as luzes da cidade ao redor. Ela passara o ano novo desacordada... Duas semanas em coma e quase um mês naquela cama...

- Minamoto-san... você sabe quando eu vou ter alta? - ela perguntou, voltando-se para ele.

- Eu ouvi Shouta-kun conversando com seus pais... Parece que Morinaga-sensei pretende liberá-la em mais uma semana. Por hora, você terá de ficar na cidade, para poder fazer o acompanhamento, mas eu tenho impressão de que eles estavam discutindo onde seria melhor você ficar para se recuperar. - ele sorriu - O que você prefere? Okinawa ou Hokkaido?

Ela deu de ombros.

- Eu não sei. Não tenho nenhuma lembrança dos dois, não sei se tinha alguma preferência. - Hanako abaixou a cabeça, encarando suas mãos entrelaçadas em seu colo - Você conhece algum deles?

Seiichi assentiu.

- Eu sou de Hokkaido. De um vilarejo meio escondido no meio das montanhas. - ele sorriu - É um bonito lugar.

- Então talvez eu deva ir para Hokkaido. - ela murmurou para si mesma - Eu queria poder andar na neve.

- Eu levo você depois que te derem alta. - ele ofereceu.

Foi a vez de Hanako sorrir.

- Arigatou, Minamoto-san.