MADRIGAL







Volume 1 - Capítulo 01

Prelude


Prelude: Peça curta, geralmente precede um trabalho mais substancial; podendo ser também uma introdução orquestral à ópera, embora não tenha tamanho suficiente para ser considerada uma Abertura.
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Para ouvirCello Suite No.1, Prelude in G Major, Johann Sebastian Bach


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*Beep...*Beep...*Beep...*

Ela sentia como se estivesse à deriva em um minúsculo barco, em meio às águas turbulentas de um oceano de chamas. Sentia cada músculo arder à simples menção de um movimento e a cabeça parecia querer explodir a qualquer instante. Entretanto, se não lutasse contra a correnteza, ela a levaria para o fundo, para as profundezas, para a escuridão... E ela não gostava da escuridão...

*Beep...*Beep...*Beep...*


Aos poucos, sua percepção foi entrando em foco. Não conseguia se mexer, não conseguia falar... Não via nada do que estava acontecendo ao seu redor. Contudo, podia ouvir uma melodia suave e tranqüilizante, que dissonava do constante apitar. Sem perceber, ela se sentiu mais relaxada, notando ao mesmo tempo em que não se encontrava mais no terrível oceano. Entretanto, tudo continuava escuro...

*Beep...*Beep...*Beep...*

- Você já está aqui de novo? – uma voz feminina séria, mas paradoxalmente reconfortante, soou ao seu redor.

A melodia morreu e ela tentou se mexer, tentando pedir, para quem quer que fosse responsável por aquele som, que não parasse. Mas não conseguiu qualquer sucesso.

- Shiraishi-san gosta de ouvir peças como essa.

Ela sentiu vontade de sorrir ao ouvir a resposta. A voz que respondera era tão calma quanto a melodia que ele estivera tocando. Ela esperava que a pessoa para quem ele tocara tivesse apreciado tanto quanto ela.

*Beep...*Beep...*Beep...*


Alguém parou ao seu lado – podia sentir o calor que irradiava da pessoa. Quem seria? O rapaz da música? Ou a voz feminina?

Ela sentiu dedos delicados e firmes manipularem seu braço, que estava estranhamente dolorido.

- Você pode destampar essa agulha para mim?

*Pop*

Havia um gosto estranho em sua língua. Aos poucos, seus sentidos foram amortecendo. Ela mergulhou na completa inconsciência.

*Beep...*Beep...*

Estava despertando de novo... Sentia-se sufocada pela escuridão que tentava envolvê-la, afogá-la nas ondas do oceano que se estendia ao seu redor... Sentia vontade de falar, de perguntar o que estava acontecendo, mas sua voz não saía. Queria se mexer, queria se levantar, mas nunca demorava muito tempo para que ela voltasse a dormir.

Quantos dias estavam se sucedendo daquela maneira? Ela não tinha nenhuma noção de tempo ou de espaço. Por diversas vezes teve a impressão de que não estava sozinha, e esse era o único alívio que sentia. Havia passos abafados ecoando ao seu redor, vozes sussurradas... E, em um desses despertares, ela teve impressão de ouvir a mesma melodia de antes... Era tão familiar... Ela conhecia aquela música... Antes, contudo, que pudesse reconhecer alguma coisa, mergulhara de novo, à deriva em seu oceano imaginário.

*Beep...*Beep...*

- Como ela está hoje? – era a voz responsável pela música.

- O mesmo de sempre. – respondeu outra voz que, embora ela não tivesse ouvido ainda, também fazia com que se sentisse segura e confortável – Seiichi, e se minha irmã não acordar? E se ela dormir por cem anos, como aquela...

- Shouta, ela vai acordar. Tenha um pouco mais de paciência.

- É difícil ter paciência quando a pessoa que você mais ama está desacordada numa cama de hospital.

Havia tanta tristeza no tom dele... Ela queria... Ela tinha de alcançá-lo... Alguém... tinha de haver alguém que pudesse confortá-lo...

Sentiu os dedos formigarem enquanto tentava se mexer. Devagar, seus olhos se abriram, uma pontada de dor se espalhando por toda sua cabeça ao primeiro sinal de luz. Se o gemido que ela soltara não fosse anúncio suficiente de que estava, afinal, acordada, o movimento de seu braço cobrindo o rosto para protegê-la da claridade fez o restante.

Ela fez uma careta, franzindo o nariz sob a máscara em torno de seu rosto, antes de voltar a abaixar o braço espetado por agulhas, para só então se voltar aos outros ocupantes do quarto.

Eram dois rapazes. O primeiro, que estava sentado junto à cama dela, era moreno, de feições simpáticas – ainda que houvesse olheiras sob suas pálpebras e ele parecesse extremamente cansado. O outro tinha os cabelos brancos como flocos de neve, embora tivesse uma aparência bastante jovem, e olhos escuros e expressivos.

Os dois pareciam ter se esquecido de respirar, encarando-a como se ela fosse um fantasma ou algo do tipo. Algo no ar mudou e, no segundo seguinte, era ela que estava sufocada sob os braços do moreno, que praticamente pulara da cadeira em cima dela, chorando.

- Hanako... Hanako, você acordou... Finalmente, finalmente... Minha irmãzinha, eu nunca mais vou deixar você sair das minhas vistas. Hanako...

Ela o observou em silêncio, confusa pelas lágrimas e soluços que ele derramava sobre ela. O outro rapaz também se acercara de sua cama e tentava fazer com que o moreno a libertasse.

- Shouta... Você vai machucá-la se continuar assim.

Aquilo fez com que Shouta recuperasse a compostura – ou, pelo menos, uma semelhança de compostura. Os olhos castanhos dele tinham se iluminado como os de uma criança ao receber presentes e as lágrimas que escorriam por seu rosto pareciam deslocadas em sua expressão contente.

Ela desviou a atenção do moreno ao sentir o olhar do rapaz de cabelos brancos sobre seu rosto. Ele também parecia contente, embora não demonstrasse de forma tão óbvia quanto seu amigo.

- Shiraishi-san, você está bem? – ele perguntou, sorrindo para ela.

Com certa dificuldade, ela puxou a máscara para baixo, sentindo o ar mais pesado que o oxigênio que estivera respirando até há pouco.

- Eu... eu acho que sim. – ela respondeu, rouca – O que aconteceu?

- Você não se lembra do acidente? – Shouta perguntou, sentando-se na beirada da cama – Você sofreu uma batida feia, Hana-chan. Bateu a cabeça bastante forte. – ele balançou a própria cabeça como se quisesse esquecer aquilo – Bem, sorte nossa que Seiichi estava lá.

Ela assentiu devagar, tentando molhar os lábios. Sua garganta estava seca, dolorida. Sua ação não passou despercebida pelo outro rapaz, que imediatamente alcançou uma garrafa de água que estava na cabeceira, estendendo-a para ela.

- Beba devagar. – ele recomendou; depois, voltando-se para o amigo: – Eu vou procurar uma enfermeira para avisar que ela acordou.

Shouta assentiu, sorrindo.

- Não demore muito, Seiichi. Hana-chan não tem mais tempo a perder aqui.

Ela piscou os olhos, descansando a garrafa de água contra seu peito.

- Meu nome então é Hanako?

O sorriso desapareceu da face de Shouta. Ela não podia ver a expressão do outro rapaz, já que ele dera as costas para ela para sair do quarto, mas ele estava agora paralisado, a mão estendida em pleno ar sem alcançar a maçaneta.

- Você... Hanako, você está brincando? – Shouta perguntou, aproximando-se um tanto hesitante – Você não... Você não se lembra?

Ela balançou a cabeça. Ele respirou fundo.

- Você sabe quem eu sou?

O silêncio parecia pesar sobre eles. Ela o encarou profundamente, tentando encontrar respostas no reflexo dos olhos dele. Não havia nenhuma.

- Não. Eu não sei quem é você.