Por que aquilo tinha acontecido? Era só o que Shizu conseguia pensar enquanto via descer o caixão a sua frente. Ela não ouvia as palavras que lhe eram dirigidas e não sabia quem estava ao seu lado segurando sua mão. Seus olhos estavam fixos e sua mente presa no dia anterior, quando chegara em casa para passar o final de semana.
Se Shizu achava que estava sofrendo com o modo que seu namoro terminara, o destino fez questão de mostrar que ela não sabia o que era padecer.
Ao ouvir o grito de seu irmão vindo do escritório da família, ela correu e a cena que viu ficaria marcada em sua mente para o resto de sua vida. Seu pai jazia no chão, sem respirar.
Depois disso ela não se lembrou de mais nada, nem como chegou em casa nem como trocou de roupa para ir ao enterro de Kissaburo. Seu mundo parou no momento em que seu pai morreu em seus braços.
Uma a uma, cada pessoa que estava no cemitério se retirou, mas Shizu não viu nada. Seus olhos estavam parados onde seu pai tinha acabado de ser enterrado. Sayo e Hilde tentaram tirá-la de lá, mas ela se soltou e elas aceitaram que a garota precisava de mais tempo.
Não demorou até que Shizu ficasse sozinha em frente ao túmulo do pai. Os olhos da jovem pousaram sobre a flor que estava ali, era a mesma que estava no túmulo de sua mão, ao lado.
As lágrimas que não saíram à manhã toda apareceram timidamente enquanto Shizu lia as lápides de seus pais. A mente dela ainda se recusava a acreditar que aquilo tinha acontecido, não podia ser verdade. Kissaburo e Tori Akiba, amados pais, enterrados um ao lado do outro.
Uma lufada de vento fez com que os longos cabelos negros de Shizu voassem em seu rosto. A pele se arrepiou de frio, mas a mente ignorou. Nada a tiraria dali.
As pernas de Shizu fraquejaram e tremendo ela caiu sentada no meio dos dois, sujando de terra o kimono que usava. Ela segurou o rosto com suas mãos, tentando passar alguma segurança a si mesma. A realidade a tinha atingido fortemente e seu peito doía. Lágrimas e soluços não eram suficientes para expressar o que sentia e ela falou.
- Por quê? Me digam por que tenho que ficar aqui sem vocês? Tousan, você não podia ter ido agora... - Shizu virou o rosto. - Okaasan, sei que você sente falta dele, mas preciso dele aqui... Preciso... do... meu... pai...
As palavras sumiram nos soluços e no choro. Shizu balançou a cabeça negando tudo aquilo. Queria acordar daquele pesadelo.
Com os olhos embaçados ela olhou para trás das lápides de seus pais, onde estavam enterrados seus três irmãos. Shizu mal se lembrava deles, mas sempre gostou de ver as fotos onde os três rapazes brincavam com a pequena princesa que nasceu no meio deles.
Ali na sua frente estava sua família, era ali que ela queria ficar, era ali que ela pertencia.
- Como puderam me largar aqui? - O tom de voz de Shizu mudou, falava firme. - Será que eu não mereço estar com vocês? Vocês são minha família! Vocês não tinham o direito de fazer isso comigo!! - Ela gritou, ressentida.
Shizu estava sentada esperando uma resposta que não viria. Brigava consigo por estar fazendo aquilo, mas não conseguia evitar. Se não falasse, se não desabafasse...
Se pudesse ver seu pai ao menos mais uma vez...
- Eu não pude nem me despedir...
Ela deitou na grama no meio dos túmulos dos pais, com o rosto escondido nos braços.
Minutos ou horas se passaram até que as lágrimas e os soluços diminuíram. Shizu não sabia e não se importava com o passar do tempo.
Ouviu passos, mas não levantou o rosto. Não queria falar com ninguém. Queria ficar ali. Sua casa era com sua família, estava no lugar certo.
A contragosto Shizu sentiu seu corpo sendo levantado e ela teve que ficar sentada. Viu os olhos preocupados do homem que seu pai chamaria de irmão, se tivesse um. Akiba Wataru ofereceu o ombro, que ela aceitou, e os braços que a envolveram protetoramente.
Shizu se deixou levar pelo primo de seu pai para o carro, já estava no final da tarde e seu corpo estava cansado. Iria para casa.
Ao ver Shizu entrar Asuya se levantou e abraçou a prima, estava muito preocupado. Não queria ter saído do cemitério, mas seu pai disse que ele tinha a obrigação de ajudar Yassu no que ela precisasse. O rapaz se assustou com o estado dela, suja de terra na roupa, no rosto e com grama no cabelo. Os olhos dela estavam apagados.
Wataru guiou o corpo da sobrinha para dentro da casa, fazendo-a se sentar no sofá. Pediu ao filho que avisasse Yassu que tinham retornado, mas Asuya falou que tanto ela quanto Kiyo estavam dormindo. Deram uma poção para que descansassem.
- Pegue para Shizu também. Ela não dorme desde ontem. - Ele falou para o filho.
Asuya ia sair da sala quando viu Hoitiro passar por ele com o rosto sério e decidido. O instinto protetor que tinha por Shizu fez o rapaz voltar. Ele viu no olhar do primo que este ia fazer algo. Estava escrito no rosto do menino a raiva que sentia pela irmã.
- É TUDO CULPA SUA!! - Ele parou na frente de Shizu e colocou o dedo no rosto dela. - Meu pai morreu de desgosto ao saber que sua filha mais velha tinha sido dormido com um rapaz que não era nada dela. Você desonrou a família!
Lágrimas saíram dos olhos do garoto, que também sofria com tudo aquilo. Hoitiro amava o pai, ele era seu exemplo, o que almejava ser quando crescesse. Agora, o menino tinha se tornado o homem da casa, novo demais, e culpava Shizu pela sua dor.
Com um sinal de cabeça, Wataru indicou para seu filho não se meter. Aquilo era entre os irmãos e um dia teria que ser resolvido. Não era a melhor hora, mas somente iria interferir se fosse necessário.
Até o momento
- Repete o que falou sua desgraça de irmão! Diga o que aconteceu de verdade com nosso pai! - Ela falou.
- Ele me chamou para conversar e só falava de você, o quanto você o tinha desapontado. - Hoitiro respondeu. -
Queria minha ajuda e eu falei que não havia mais volta, que você era algo usado agora e que mais ninguém iria te querer.
Para surpresa de todos na sala, Shizu empurrou o irmão até a parede e com uma das mãos o prendeu pelo pescoço. Com uma força que ela não sabia possuir, levantou o corpo do menino e fechou um pouco a mão, fazendo Hoitiro tentar acertá-la para se soltar.
Os olhos negros e normalmente doces de Shizu estavam faiscando de ódio. Não tinha mais que agüentar seu irmão, não havia pai para agradar, não precisava mais dele. Sem parar para pensar ela fechou mais a mão, obrigando Asuya interferir fazendo-a soltar Hoitiro, que caiu tossindo no chão.
- Sua louca! - Ele xingou. - Eu...
- Você vai pensar na sua mãe e vai para seu quarto. - Wataru levantou o garoto.
- Você não é meu pai! - Hoitiro respondeu.
- AGORA!
Sem se deixar ser contestado, Wataru viu Hoitiro ir para seu quarto. Ele virou para Shizu, que estava parada se deixando abraçar por Asuya, e viu que teria que fazer mais do que deixa-la
O homem iria cumprir a promessa que fizera ao primo quando os filhos dele faleceram, iria tomar conta de sua família caso acontecesse algo com ele. Kissaburo, quando falou isso, achou que sofreria a mesma doença que sua esposa, mas mesmo o tempo tendo passado Wataru iria manter sua palavra. Cuidaria para que Shizu pudesse descansar nos próximos dias.