Engraçado era pensar que a mesma mão que empunhava firmemente o cabo de uma katana podia ser suave e calorosa, apoiada em seu braço.
Com o canto dos olhos, Haruhiro observou sua companheira enquanto os fogos de artifício que anunciavam a chegada do novo ano estouravam sobre eles. A tez pálida de Kitsune refletia as cores que explodiam no céu, seus olhos cinzentos mais brilhantes que o normal. Os lábios, profundamente vermelhos, estavam entreabertos, pequenas nuvens formando-se com a respiração da moça.
Ela parecia ainda mais frágil envolta no quimono perolado, contrastando com o negro dos cabelos presos em um penteado tradicional.
- O que você está olhando, Haruhiro? – Kitsune perguntou, voltando completamente o rosto para ele, fixando os olhos claros e intensos sobre seu rosto.
O jovem Mihara sentiu um ligeiro rubor ao perceber que fora pego, mas isso não o impediu de responder com um sorriso largo, tão característico dele.
- Gomen, Kitsune, mas você está particularmente adorável essa noite. – ele piscou um olho, desviando sua atenção para a figura de outra jovem que, não muito distante, observava-os com desmedida atenção – Rika tem uma certa razão, eu não deveria estar privando os outros da sua companhia. O que posso dizer, eu sou egoísta... – Haru voltou a encará-la, o sorriso agora mais tranqüilo. – Eu não pretendia deixá-la desconfortável, Kitty. Sinto muito.
A garota ergueu o rosto para o céu mais uma vez.
– Eu não me importo, Haruhiro. Você está sempre me olhando; de certa forma, eu estou acostumada.
Ela não falou mais que isso, deixando-o ligeiramente perdido com o significado de suas palavras. Soltando um pequeno suspiro, o rapaz também voltou a atenção para o espetáculo dos fogos, já quase em seu final.
Final também da festa. Não demoraria muito agora para que os convidados começassem a se retirar. A moça que o acompanhava seria, muito provavelmente, uma das primeiras a partir – nenhum dos Yamamoto tinha apreço por aquele tipo de ocasião, atendendo às recepções formais apenas pelo fato de que não podiam fugir às tradições.
Absolutamente consciente da figura ao seu lado, não passou despercebido por Haruhiro quando um tremor sacudiu quase imperceptivelmente o corpo de Kitsune. Ele emprestara a ela mais cedo o casaco de sua mãe, mas, ainda assim, a manta de pele que estava agora sobre os ombros da jovem era fina demais para o frio que estava fazendo.
- Kitsune? – ele chamou, desenlaçando o braço dela do seu, puxando-a levemente até posicioná-la diante dele, uma de suas mãos repousando casualmente sobre a cintura da moça – Se você ficar na minha frente, vai bloquear um pouco mais o vento.
Ela respondeu com um meio sorriso. – Arigatou, Haruhiro.
O caçula dos Mihara também sorriu, meneando a cabeça.
- Não há de quê, Kitsune.
No céu, as últimas luzes dos fogos de artifício apagavam-se: estavam oficialmente em um novo ano... E, para Haru, com a figura da amiga tão próxima a si, ele não podia estar começando melhor..